A Microsoft no tudo ou nada

          A companhia dá sinais de que quer ir ao mercado sozinha, com uma solução completa e integrada, mas ainda dependente de seus canais e parceiros enquanto isso não se consolida

          Nos últimos anos, a Microsoft viu sua antes inatingível liderança no mundo de TI não apenas ser ameaçada, como de fato ser perdida, vendo alguns concorrentes se distanciarem a sua frente em diversos indicadores. Nos últimos dias, mais um movimento da gigante de Seattle foi dado em busca da reversão desse cenário, com o anúncio da compra da unidade de serviços e devices da Nokia por 7,2 bilhões de dólares.

          O que levou uma empresa que sempre deixou sua parte de hardware a cargo de parceiros e sempre defendeu esse modelo de negócios a buscar dar um novo impulso na direção oposta, como no lançamento do tablet Surface?

          A raiz do conflito está no fato de que a Microsoft demorou muito para valorizar a experiência e simplicidade de uso em seus produtos. A empresa de Bill Gates sempre se caracterizou por fazer complexos e poderosos lançamentos, principalmente para o mercado corporativo, mas que deixavam usuários finais sempre em segundo plano. Numa sociedade encantada pela inclusão digital, os usuários nas empresas dependiam de profissionais mais experientes de TI – que eram tratados como superstars – caso desejassem usar corretamente qualquer produto Microsoft, mesmo para uso pessoal.

          O fato é que muito dessa complexidade e inclusive os famosos momentos de tela azul não são, em grande parte, culpa da Microsoft e sim de conflitos com hardwares ou softwares de parceiros, responsáveis pela integração com o sistema operacional, o que os levou para a atual direção.

          Empresas como Apple e Google, hoje com valores de mercado maiores que a Microsoft, perceberam antes – e bem antes – a importância de simplificar suas experiências, seja produzindo software e hardware como a gigante de Cupertino, quanto apostando em serviços na nuvem, como a empresa de Palo Alto. Assim, conquistaram muitos usuários finais e vem ganhando cada vez mais espaço no mundo corporativo.

          Percebendo esse movimento, mesmo com uma fidelidade à Microsoft, o mundo da TI não tem evitado a invasão de devices e produtos não Windows, que vem entrando todos os dias nas empresas, através do fenômeno que conhecemos como BYOD (Bring Your Own Device) e também da Cloud Computing. Isso mostra que definitivamente, o poder de decisão mudou das mãos de TI para os usuários.

          Por isso, a busca pela retomada da simpatia e da adesão de usuários finais vem fazendo com que a Microsoft mude sua estratégia e incorpore o hardware no seu modelo de negócios, já que ter controle do hardware até o software é um dos caminhos para simplificar a vida dos usuários, ajudando também a manter o nível de qualidade a um preço aceitável, outro grande desafio.

          A dúvida fica por conta, não apenas de saber se já não é tarde demais para reverter a situação, mas também do risco que essa transição do modelo de negócios traz para a própria Microsoft. Recuperar os usuários finais é algo que precisa ocorrer muito rapidamente, caso contrário, parceiros tradicionais de hardware como HTC, Samsung, Sony, entre outros, passarão a intensificar e consolidar outras opções, não apostando mais nos produtos Microsoft a longo prazo.

          O maior candidato a receber a adesão desses parceiros é sem duvida a Google, que apesar de também ter seus próprios hardwares para notebooks, tablets e smartphones, tem no fato de fornecer gratuitamente os sistemas Android e Chrome OS, uma posição diferenciada.

          Isso não pode ficar restrito ao mercado de dispositivos móveis. O mercado de PCs, que vem perdendo muito espaço para os tablets e também para desktops da Apple, também deve entrar em estado de alerta. Por enquanto, este mercado parece estar garantido para a Microsoft, pois não há muitas opções de sistemas operacionais para os parceiros de hardware desktop, mas a maior ameaça está justamente no Chrome OS, da Google, que passa a ser uma excelente opção para usuários de serviços exclusivamente na nuvem, mercado que vem crescendo bastante. Além disso, a migração do modelo de software para o modelo SaaS (Software as a Service) permite que novas opções de sistemas operacionais surjam com maior facilidade.

          Em resumo, vemos aqui o clássico cenário de modelo de negócios conflituoso, onde a Microsoft claramente dá sinais que quer ir ao mercado sozinha, com uma solução completa e integrada, mas ainda depende de seus canais e parceiros enquanto isso não se consolida. O discurso é que os parceiros são muito importantes e não devem se preocupar, mas as ações são cada vez mais na direção de uma concorrência com eles. No final, a diferença entre o tudo e o nada está na velocidade dessas transformações e temos visto nos últimos tempos, que agilidade não tem sido o forte da Microsoft.

          Fonte: CIO

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